quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Sequência Didática - A Globalização dos Valores

O aprendizado de um aluno exige uma motivação interna, que é a tarefa principal do professor conseguir despertar, mas em alguns casos é muito difícil de ser atingida por uma série de motivos, tornando-se assim, o grande desafio da educação atualmente. Venho tentando me atualizar e trabalhar de forma diferenciada, utilizando em parte as tecnologias e também propondo atividades contextualizadas, mas não é tão fácil como pode parecer, pois falta tempo para pesquisa e planejamento, e é preciso mudar também a visão dos alunos: de como aprender e de ver a escola, pois o fato de alguém ler apenas coisas do seu interesse, não significa que essa pessoa se torne um leitor e que adquira o desejo do conhecimento em geral. Antes de trabalhar numa escola particular, eu pensava que a maior dificuldade da escola pública era a falta de recursos humanos e materiais, de subsídios e de tecnologias para trabalhar os conteúdos, mas depois percebi que não se trata apenas disso, embora esses recursos ajudem, pelo menos, a chamar atenção dos alunos. Porém, mesmo tendo todos os recursos necessários, numa escola que poderia ser considerada um sonho de consumo de qualquer professor em termos de condições de trabalho, constatei que existem muitos alunos que não aproveitam, não têm nenhum interesse e ainda prejudicam os colegas que poderiam evoluir mais, simplesmente por falta de valorização do estudo, do conhecimento, da escola e dos recursos que estão sendo investidos neles. Outro problema que já vinha me preocupando bastante há algum tempo, é o fato de os alunos saberem teoricamente tudo o que é ecologicamente correto, porém na prática, o que se vê é o pátio e as salas sujas, desperdício de merenda, classes destruídas, luzes acessas o tempo inteiro, torneira escorrendo e alagando tudo, enfim, um ambiente depredado, numa clara desconexão ente a teoria e a prática, como se tudo que foi trabalhado sobre o meio ambiente fosse apenas para saber, mas sem a necessidade de executar ações que garantam a conservação do ambiente escolar, especialmente o espaço público da escola. Além desses desafios, precisei buscar uma forma de fazer render o máximo possível o tempo disponível, quando fui trabalhar na maior escola de Ensino Médio da Região de Bagé, integrando as disciplinas de Geografia e Filosofia que possuíam apenas uma hora-aula de cada por semana, diminuindo dessa forma as correções de avaliações e fazendo uma parte de interdisciplinaridade entre os conteúdos sobre Globalização (de Geografia), Virtudes e Valores (de Filosofia). Resolvi fazer dessa forma, principalmente por saber que a integração das diversas áreas do conhecimento é uma necessidade urgente para garantir um melhor desempenho dos alunos, embora as dificuldades sejam enormes no contexto atual. A autora Meinardi (1999, p.28), na Quarta Jornada Nacional de Ensino de Biologia, realizada na Argentina, há mais de uma década já questionava: A maioria de nós nos formamos como docentes de uma disciplina, trabalhamos sozinhos em sala de aula e não temos tempo remunerado para discutir com docentes de outras disciplinas. Pergunto-me como podemos fazer interdisciplina nestas condições. O trabalho foi então desenvolvido na Escola Estadual de Ensino Médio Dr. Carlos Antônio Kluwe, em Bagé-RS, nas disciplinas de Geografia e Filosofia, com alunos de sete turmas do 3º ano, totalizando cerca de 220 alunos concluintes da Educação Básica, durante o segundo semestre do ano de 2011. Infelizmente não consegui contar com a colaboração de outros colegas da escola, em virtude de uma série de dificuldades operacionais, que não são novidades para quem está exercendo a regência de classe atualmente na rede pública do Estado do RS. Segundo Lenoir (2001, p. 58), o planejamento não estruturado e individualizado, é um dos principais obstáculos ao trabalho interdisciplinar e uma das etapas necessárias à interdisciplinaridade, localiza-se exatamente no plano da interdisciplinaridade didática que se caracteriza por suas dimensões conceituais e antecipativas, e trata da planificação, da organização e da avaliação da intervenção educativa. O presente trabalho teve origem quando os alunos realizavam as atividades previstas numa Webquest sobre Globalização, no Laboratório de Informática, encontrada no site:http://www.webquestbrasil.org/criador/webquest/soporte_izquierda_w.php?id_actividad= 1470&id_pagina=1, e um aluno me indicou um vídeo sobre o Capitalismo. Tomei conhecimento desse vídeo e achei ótima a explicação sobre como se sustenta o capitalismo, pois facilita a compreensão de muitas coisas que fazemos e nem percebemos no cotidiano. E mais, traz toda a questão ética e ambiental embutida no seu conteúdo, sendo ideal para trabalhar esses dois Temas Transversais. O título do vídeo, que está disponível no You Tube, é a História das Coisas e pode ser encontrado no link: http://www.youtube.com/watch?v=ZpkxCpxKilI, mostrando muitos aspectos dos conteúdos escolares de Geografia, Filosofia, Sociologia, Química e Inglês, mas pode ser explorado por todas as disciplinas do currículo. Pesquisando e lendo sobre esse assunto, encontrei vários autores que retratam muito bem a necessidade de obter resultados mais consistentes na questão da conservação ambiental, dos quais destaco duas posições diretamente relacionadas às minhas ideias. A humanidade, desde suas origens, tem consumido. Podemos dizer que a ação de consumir é inerente ao gênero humano. Os bens e objetos de consumo vão mudando ao longo da história da humanidade e o ato de consumir foi adquirindo um significado distinto. O ato de consumir supõe um modo individual, mas também um fenômeno social. A nossa sociedade de consumo está intimamente unida à problemática ambiental, pois a atual crise ecológica que vive o mundo está estreitamente vinculada ao modelo de desenvolvimento que a sociedade capitalista moderna desenvolveu desde o século passado. (Vilallonga, 2006) O uso indiscriminado dos recursos naturais e da tecnologia, sem critérios adequados de preservação ambiental, conduziu o planeta a um caminho de degradação e a sobrevivência da humanidade corre um sério risco. Como uma reação em sentido contrário, diferentes áreas da ciência começaram a trabalhar juntas para resolver os problemas relacionados à preservação do planeta e dos seus ocupantes. Torna-se então, fundamental educar os cidadãos não apenas para a aquisição de conhecimento, mas para o uso ético e responsável desses recursos. (Hartmann & Zimmermann, 2007). Dessa forma, percebi que era preciso fazer algo mais significativo, e de certa forma até chocante, que, talvez por isso, pudesse trazer uma mudança de comportamento mais significativa nos alunos, sensibilizando-os e obtendo um resultado mais concreto e próximo daquele que durante os anos anteriores vinha buscando, permitindo atrelar a teoria com a prática cotidiana na escola. Na busca desse objetivo, foi proposto aos alunos que realizassem um trabalho integrando esse dois assuntos, contendo a definição de Globalização, algumas vantagens e desvantagens desse processo e sua relação com os Valores Morais atualmente, que deveria ser apresentado de forma livre, em multimídia ou na forma tradicional com cartazes ou painéis, pois alguns alunos não dispunham de tecnologia em casa para executar tudo. Eles também deveriam escolher uma música ou poesia que falasse sobre a virtude escolhida. Após assistir ao vídeo, destaquei alguns aspectos e solicitei que os alunos anotassem o que mais chamou sua atenção durante a exibição. Depois dessa etapa, os alunos, novamente no Laboratório de Informática, foram orientados a acessar o site do Instituto Akatu, para explorar exemplos e sugestões de consumo consciente, e também uma oficina sobre a Teia de Impactos Ambiental. Na semana seguinte, foi proposto que respondessem às questões a seguir: a) Explique o que significa realizar um consumo consciente: b) Diga de que precisamos realmente para ser felizes nesta vida: c) Explique como os EUA agem e se relacionam com os demais países na questão ambiental: d) Indique pelo menos mais dois exemplos de produtos fabricados de forma globalizada: e) Explique qual a relação que existe entre as propagandas e o nosso direito de livre escolha para fazer compras: f) Explique por que é necessário reduzir o consumo inconsciente e exagerado de produtos industrializados: g) Analise criticamente a questão e se posicione argumentando a favor ou contra a seguinte afirmativa: O sistema capitalista é desumano e desconsidera o valor das pessoas na sua ânsia pela obtenção de lucros. h) O que mais lhe chamou atenção nesse vídeo e por que isso ocorreu? Logo após a correção e os comentários sobre as questões em aula, os alunos ficaram com a tarefa de construir uma Teia de Impactos sobre a produção industrial, em grupos de até cinco componentes, seguindo o modelo fornecido abaixo: A seguir, apresento uma das Teias que foi construída pelos alunos: A avaliação das etapas do trabalho foi dividida e valorizada em três partes: as questões a serem respondidas valeram 3,0, a Teia de Impactos foi valorizada em 4,0 e o resto da apresentação valeu 3,0, totalizando 10,0 (dez pontos), pois a escola adota média aritmética, com todas as avaliações tendo o mesmo peso. Na avaliação final do bimestre, duas das questões sobre esse assunto foram:  Considerando o vídeo a História das Coisas e os demais estudos realizados, leia o texto, observe a figura e depois responda corretamente: “Nos últimos tempos, a eliminação de resíduos perigosos tem sido largamente discutida e algumas soluções apresentadas têm levantado grande polêmica, em particular na região central do estado do RS. O autocolante seguinte diz respeito a esta problemática.” a) Indique pelo menos dois problemas ambientais causados pela incineração do lixo: b) Explique por que o desenvolvimento econômico capitalista está em contradição com a con¬cepção de conservação dos recursos naturais: c) A destruição da camada de ozônio deve-se principalmente aos CFC’s que libertam átomos de cloro. Estes reagem com o ozônio do seguinte modo: Cl + O3 ® ClO + O2 ; ClO + O ® Cl + O2 . Indique pelo menos um problema de saúde que poderá resultar disso e uma medida que você possa tomar como consumidor, para contribuir na diminuição da destruição da camada de ozônio:  Leia atentamente o texto e responda as questões propostas: Cúpula apresenta pobreza como agente poluidor Apesar de a Rio + 10 focar o debate no combate à pobreza, estudos mostram que países industrializados poluem muito mais que os menos abastados. Se um extraterrestre aterrissasse na Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio + 10) ficaria com a impressão de que o de que os únicos que poluem o planeta são os po¬bres. Nos discursos de abertura, nas entrevistas coletivas com funcionários dos organismos multilaterais e mesmo no•esboço do Plano' de Implementação da Agenda 21, que está em discussão, a eliminação da pobreza tem um peso maior do que as metas especificamente relacionadas com a questão do meio ambiente, com base numa .relação de causalidade entre pobreza e desenvolvimento insustentável. Tóxicos, resíduos químicos, lixo nuclear e poluição dos automóveis são muito mais produzidos pelos países industrializados do que pelos pobres. Além disso, os ricos poluem mais porque consomem mais. A equação da sustentabilidade só pode ser resolvida se mudar o padrão de consumo. Agência Estado, Lourival Sant’’Anna, 26/08/2002 ( adaptado) a) Estabeleça uma relação entre a questão da pobreza e a degradação ambiental: b) Analise a frase sublinhada no texto e justifique sua validade: O resultado foi bastante positivo, embora nem todos os grupos tenham conseguido integrar as duas disciplinas, alguns fizeram cada aspecto de forma separada, numa parte a Globalização e noutra as Virtudes, mas houve apresentações muito interessantes, com conclusões que mostraram a consecução dos objetivos propostos, além de uma mudança no comportamento de alguns alunos em relação aos assuntos e conteúdos propostos posteriormente. Abaixo destaco uma das conclusões importantes apresentadas pelos alunos: Relação entre Globalização e Generosidade: “A globalização é tida como um momento necessário na economia mundial. Mas muitos fatores estão por trás disso, inclusive a generosidade, uma qualidade indispensável nas autoridades. Essa generosidade deve partir do governo de países centrais para com os países periféricos. Os países que possuem maior poder precisam se “amaciar” e deixar a arrogância de lado para poder dar apoio aos países pobres e assim chegar à globalização. A globalização da economia é um destino inevitável, mas não pode ser atingida sem ética e humildade ou em função do lucro de minorias. Precisa-se de um comprometimento solidário.” Poema sobre a Generosidade: “Generosidade é algo tão raro, Não se tem por aí sobrando. Tem que se ter olhar apurado, Coração atento, silêncio no pensar, Não é artigo, não é mercadoria, É semente madura, Que se brota em seu tempo... Generosidade é doação, É a mão esquerda, Que não vê o que faz a direita... Gilberto Brandão Marco” (Grupo de Filipe, Giovanna, Henrique, Laura e Priscila, 1306) No ano de 2012 a proposta foi ampliada, já formatada como um projeto e apresentada também às turmas do primeiro e segundo ano do Ensino Médio, do noturno, com a participação de outros colegas das disciplinas de História, Química, Língua Portuguesa e Língua Inglesa, sendo possível ampliar o leque de conteúdos envolvidos, pois no segundo ano é desenvolvido o assunto sobre a Revolução Industrial, o que permitiu incluir, além dos Temas Transversais do Meio Ambiente e a Ética, o Trabalho e Consumo, e também a Saúde. Conforme os PCNs, o papel da escola ao trabalhar Temas transversais é facilitar, fomentar e integrar as ações de modo contextualizado, através da interdisciplinaridade e transversalidade, buscando não fragmentar em blocos rígidos os conhecimentos, para que a Educação realmente constitua o meio de transformação social. Nos próximos anos, este poderá se tornar um projeto permanente a ser desenvolvido pela escola, pois teve boa receptividade entre os colegas e uma participação significativa entre os alunos, confirmando que a conscientização é possível e despertando o espírito crítico. Como mensagem final deste texto, reproduzo aqui alguns depoimentos dos alunos sobre o que mais lhes chamou atenção ao assistirem vídeo: “ Foi que os tóxicos entram e saem do sistema e do nosso corpo e continuamos usando eles em casa sem saber nem perceber.” (Aluísio e Willian, 3102) “Que o vídeo revela quem são as verdadeiras vítimas do sistema de produção, e nos oferece alternativas para mudar o modelo consumista atual.” ( Kimberly e Shawane, 3202) “A questão da moda. É exatamente o que acontece com a maioria das pessoas quando elas têm algo que não está mais em moda. Elas se sentem constrangidas em relação às pessoas que estão mais atualizadas.” (Taiane Lima, 3201) “Foi a mensagem urgente de que temos que consumir menos, pois estamos consumindo muito mais do que precisamos.” ( Rodrigo Miranda, 3301). Considero que o trabalho executado foi de grande importância, pois levou aos alunos temas que muitas vezes são pouco trabalhados em sala de aula, dando-lhes oportunidade de aprendizado e de reflexão sobre o meio ambiente e a relação que o ser humano tem com o mesmo, demonstrando e fazendo-os compreender que fazem parte de um todo maior. Referências: www.akatu.org.br/ IA (Instituto Akatu). 2005. A árvore do consumo consciente – guia do educador. Brasil: 40p. HARTMANN AM & ZIMMERMANN E. 2007. A sustentabilidade como proposta interdisciplinar para o ensino médio. IV Encontro de Pesquisa em Educação Ambiental – Questões epistemológicas contemporâneas: o debate modernidade e pós-modernidade, Rio Claro, Brasil: 15p. LENOIR, Yves. Didática e interdisciplinaridade: uma complementaridade necessária e incontornável. In: FAZENDA, I. C. A. (org). Didática e interdisciplinaridade. Campinas: Papirus, 2001. MEINARDI, Elisa. Debates actuales en la didáctica de las ciencias naturales y su relación com la práctica en la aula. Cuartas jornadas nacionales de enseñanza de la biología - Memorias. Córdoba: Asociación de Docentes de Ciencias Biológicas de la Argentina, 1999, p.14- 25. www.portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/livro081.pdf - Parâmetros Curriculares Nacionais, MEC, 1997. www.sitedepoesias.com VILALLONGA RMP. 2006. Consumo, medio ambiente y educacíon. Congresso Ibero Americano de Educação Ambiental, Perspectivas da Educação Ambiental na Região Íbero-americana. Rio de Janeiro, Brasil: 239-248p. www.webquestbrasil.org/criador